quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

TOCA DE ASSIS




MÁRCIO PANDA EM VISITA A TOCA DE ASSIS



Toca de Assis




Jovens deixam família, amigos e amores para seguir, em nome de Deus, os votos de pobreza de São Francisco de Assis. Muita gente conhece essa história, que teve origem na Itália, no ano de 1182. Mas hoje, mais de 800 anos depois, o mesmo ideal de desapego a valores materiais seduz jovens brasileiros em torno dos ensinamentos e da figura de São Francisco.

O que faz um garoto abandonar tudo para morar em uma casa sem o mínimo conforto e passar os dias cuidando de ex-moradores de rua doentes e abandonados? "A vontade de Deus", acreditam os "toqueiros", grupo religioso que pratica a caridade segundo o carisma de Francisco.

A Fraternidade Toca de Assis foi fundada em 1994 pelo padre Roberto Lettieri, seminarista que levava comida, cobertores e fazia curativos em pobres de rua na região de Campinas. Alguns jovens, seduzidos pelo carisma franciscano e pela mensagem de amor a Deus, sentiram a "vocação" (do latim vocare, chamar) e começaram a ajudar o padre, que sensibilizou católicos de todo o País quando celebrava a fé na emissora de TV religiosa Canção Nova. Hoje, sobrevivendo apenas de doações, a fraternidade tem 12 "casas de aliança" espalhadas pelo Brasil e cuida de dezenas de homens e mulheres carentes.

Apesar do apoio de Dom Emílio Pinglioli, bispo da Diocese de Campo Limpo, a fraternidade não tem o poder de ordenar sacerdotes. Mas isso não quer dizer que o caminho até se tornar um "irmão" é fácil. Depois de um período de três a seis meses, durante o qual os irmãos avaliam se o jovem deve continuar a carreira religiosa, o vocacionado passa à aspirante, por mais um ano. O próximo passo é o postulado, por dois anos. Após se tornar um noviço, por mais um ano, o jovem é consagrado como "Irmão".

No Jardim Peri-Peri, zona sul da cidade, funciona uma das duas casas de aliança da capital. Nela, 25 homens vivem graças à bondade de oito jovens cujo único objetivo de vida é ajudar ao próximo e servir a Deus, verdadeiro milagre nos dias de hoje. Coordenada pelo irmão Hariel do Santíssimo Sacramento, de 25 anos (nascido Dimas Fabiano de Luca), a casa tem, além dos 25 hóspedes permanentes, outros 30 moradores de rua que aparecem para tomar banho, almoçar e jantar.

Paulo Ricardo Mendes e Marcos Silva, ambos aspirantes de 23 anos, vivem na casa há pouco mais de um ano. O dia-a-dia é o mais simples possível e a vida, com exceção equipamentos como TV e fogão, é muito semelhante à dos seguidores franciscanos do século 12. "Dormimos no chão, em um colchonete. Acordamos às seis para as Laudes, orações da manhã. Daí revezamos: uma parte dos irmãos vai para a missa e a outra fica para dar banho e preparar o almoço, servido ao meio-dia. À tarde, lavamos roupas, cobertores e roupas de cama, porque muitos deles não conseguem controlar suas necessidades. Às seis, novamente o revezamento: vamos à missa ou preparamos o jantar. Às segundas e terças-feiras à noite, realizamos as pastorais de rua".

Até os 21 anos, Paulo vivia como a maioria dos garotos de sua idade: gostava de rock e futebol. Nascido em São Lourenço da Serra e filho mais velho de uma família de sete irmãos, largou o emprego no supermercado quando conheceu a mensagem da Toca de Assis. "Meu pai morreu quando eu tinha 14 anos. Minha mãe é religiosa e entendeu minha opção. Ela ainda chora, mas é de saudade". Para Paulo, que também chama os ex-moradores de rua de irmãos, não dá trabalho cuidar de quem precisa, mas alegria. "A primeira vez que dei banho num irmão me deixou emocionado. Ele não tinha as pernas e quase chorei por ver que ele dependia totalmente da caridade da gente". Paulo, como os outros sete irmãos que moram na casa, fez votos de pobreza, castidade e obediência (ao superior religioso). "Meus únicos objetos pessoais são uma Bíblia, uma camisa do São Paulo F.C., o terço e um par de chinelos. Tenho orgulho de viver na pobreza", afirma.

Marcos tem uma história um pouco diferente. Depois de receber alta da clínica para dependentes de drogas, passou a trabalhar com crianças carentes. "Minha família nunca foi muito religiosa, mas hoje eles entendem". E a namorada, como encarou? "Entrei para a Toca uma semana depois de terminar o namoro. Ela achou que eu tinha ficado louco, mas quem era ela para impedir a vontade de Deus?"

Na tarde de segunda-feira, a casa recebeu dois novos vocacionados, vindos de Montes Claros, interior do Estado. "Estamos iniciando uma nova etapa de aprendizagem", diz João José, de 17 anos. É difícil se adaptar à castidade? "Já sigo os votos desde novembro de 1999. Quero viver assim até morrer", afirma.

Nas noites de pastoral, os toqueiros recebem ajuda dos leigos, simpatizantes que auxiliam na distribuição de cobertores, alimentos e amor aos moradores de rua. "Eu venho ajudar porque os meninos da Toca são muito bons, têm Deus no coração", diz Maria José Bezerra, 52 anos, empregada doméstica, que ajuda na cozinha da casa. Segunda-feira, o cardápio era arroz, feijão, carne e batata.

Os toqueiros saem por volta das oito da noite e só voltam quando acabam os "marmitex", apelido das refeições embrulhadas em papel alumínio. São distribuídas cerca de 80 por noite, em regiões como Lapa e Pinheiros. Para os carros que passam indiferentes na rua, são loucos abraçando mendigos. Para os moradores de rua, são anjos.

A Toca de Assis é a prova da existência de Deus. Pelo menos, é isso o que pensa Nagib, de 48 anos, ex-morador de rua. Depois de viver vagando por diversos bairros de São Paulo, Musineli Alves Martins, o Nagib, mudou-se para a casa de aliança há cerca de um ano.

Sua história é parecida com a da maioria dos ex-moradores de rua que vivem na casa. Trabalhava normalmente, tinha mulher, filhos. Começou a beber e caiu em desgraça: perdeu o emprego e, na seqüência, abandonou a família, para viver na rua. Pouco tempo depois, passou a injetar drogas e remédios na veia, cheirar cocaína e fumar crack. A baixa resistência resultou em uma infecção na medula que o impede de andar.

Na casa, o álcool é totalmente proibido e só são permitidos três cigarros por dia, cedidos pelos próprios irmãos: após o café da manhã, o almoço e o jantar. Os ex-dependentes de álcool também não podem sair sozinhos à rua, porque acabam indo direto para os bares da região.

"Muita gente não gosta de vir para cá porque acha que perde a liberdade. Eu não sinto falta nenhuma da bebida. Se não fosse pelos irmãos, já teria morrido faz tempo. Nunca fui religioso, mas hoje rezo o terço e leio a Bíblia". Depois de morar na rua por 12 anos, Nagib aceitou viver com os irmãos depois de tomar um tiro num acerto de contas com um traficante, por causa de R$ 30,00. "O último degrau na vida de um homem é a sarjeta", afirma ele, que hoje se sente recuperado do vício.

Apesar do esforço dos irmãos, a morte também faz parte do dia-a-dia da Toca. Na semana passada, Luís, chileno de 66 anos, faleceu em decorrência de diabetes. Três dias depois, a cama dele já era ocupada por Abelardo Aureliano Guedes, de 53 anos. "Minha reza era 51 (pinga) e cigarro. Hoje, agradeço a Deus por eles", afirma Abelardo, emocionado.

Os moradores da casa dizem que preferem aquele local aos albergues. "Lá, eles nos recebem mal e forçam a gente a trabalhar para comer. Não tem amor como aqui", conta Nagib. Graças a esse carinho, alguns moradores se recuperam e acabam voltando para suas famílias.

Terezinha de Fátima Fagundes, 32 anos, voltou a morar com a filha depois de passar um ano na casa. "Melhorei e estou tocando a minha vida", diz ela, que visita a casa para rever os toqueiros, hoje seus amigos.

Apesar da bondade dos irmãos, a vizinhança não gosta da presença dos moradores de rua por perto. O carro da Toca, um Escort caindo aos pedaços, foi atingido por uma lata de tinta, arremessada por entre as grades do portão.

Mas não é fácil pagar as contas e manter aberta a Toca de Assis: o custo mensal gira em torno de R$ 5.000,00 e só o aluguel, cerca de R$ 1.200,00, é custeado pelo Hospital Santa Catarina. Os pagamentos estão sempre atrasados e a burocracia impede a fraternidade de receber ajuda governamental.

"Estamos precisando urgentemente de uma máquina de lavar industrial. A nossa, pelo grande número de cobertores, trabalha dobrado e sempre quebra no inverno. A conta de água daqui chega a R$ 1.000,00. Já tentamos obter pelo menos um desconto, mas até agora nada", reclama Maria do Carmo, secretária-voluntária da Toca. "Mas nada vai impedir a gente de ajudar quem precisa", promete.

Para ajudar financeiramente a Toca de Assis, basta deixar as suas doações nas seguintes contas bancárias:

Banco do Brasil (Agência 2447-3) C/C 30.000-4

Banco Itaú (Agência 009) C/C 24.920-2


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Casa Bem-Aventurado Padre Pio

R. Carlos Gomes, 457 - Gradim - São Gonçalo/RJ

Tel.: 7123200