domingo, 7 de março de 2010

A CAMPANHA DA FRATERNIDADE E O MUNDO DA EDUCAÇÃO

A CAMPANHA DA FRATERNIDADE E O MUNDO DA EDUCAÇÃO


Neste ano, a CNBB e o CONIC, no período de Quaresma, nos convidam para a conversão no que tange à economia. O objetivo geral da Campanha é “Colaborar na promoção de uma economia a serviço da vida, fundamentada no ideal da cultura da paz, a partir do esforço conjunto das Igrejas Cristãs e de pessoas de boa vontade, para que todos contribuam na construção do bem comum, em vista de uma sociedade sem exclusão”.


Portanto, a Campanha da Fraternidade 2010 quer unir as Igrejas Cristãs e, principalmente, a nossa sociedade, que é formada por pessoas de boa vontade, na promoção de uma economia a serviço da vida, sem exclusões, criando uma cultura de solidariedade e trazendo a paz. A Campanha vai nos ajudar a reconhecer nossa omissão diante das injustiças que causam exclusão social e miséria. A grande questão que esta Campanha coloca é justamente o lugar que ocupa o dinheiro em nossas vidas – “não podeis servir a Deus e ao dinheiro”, ressoa demonstrando que a sociedade deve ter outro centro que não seja a questão do lucro e do superávit econômico.


Hoje precisamos combinar eficiência econômica, justiça social e prudência ecológica, percebendo a relação e a importância do meio ambiente nas atividades de desenvolvimento econômico, social e cultural.


Cristo, o Educador Maior, que por onde passou só fez o bem, nos convida a cuidar da vida (João 10,10).


Numa economia capitalista, a vida, em muitas oportunidades, é relegada ao segundo plano. É tarefa dos cristãos educarem e levarem a Boa Nova Missionária à sociedade, que necessita dos pilares da Solidariedade sobre a paz, e da Caridade.



O desafio da escola em “educar para a prática de uma economia de solidariedade, de cuidado com a criação e valorização da vida como bem mais precioso está justamente sendo colocado diante de todos nós. A necessidade de uma educação que ajude a nossa juventude a buscar os valores do transcendente, que não podem faltar numa formação global, também nos questiona sobre o espaço que até hoje não se conseguiu para uma educação religiosa confessional e plural.


Somos um país laico e por isso mesmo todas as religiões têm a liberdade de existir e também de passar seus valores na forma de área de conhecimento nas escolas. A falta dessa oportunidade é a ditadura do ateísmo e laicismo, que não respeita a diversidade e a laicidade de nosso Estado. Até hoje incompreensões as mais diversas, muitas vezes por causas políticas, entravaram esse trabalho importante para a sociedade. Estamos formando ótimos técnicos, pesquisadores, cientistas, mas que utilizam do conhecimento muitas vezes para fazer o contrário do chamado à vida.



Além do mais, cada país tem seu rosto, cada cidade tem sua alma e nós sabemos que a vida e os valores cristãos integram a nossa cultura local. Esperamos que aconteça realmente o concurso público para os professores e que possamos ter o Ensino Religioso plural e confessional nas escolas o quanto antes. Isso educará para uma sociedade mais justa, fraterna e solidária.


Infelizmente o contexto da sociedade pós-moderna e globalizada educa nossas crianças e adolescentes a “ter” e não a “SER”. É papel das igrejas cristãs se dirigirem para o largo (ir para as águas mais profundas), educando-os para a partilha, como fez o Cristo com aquele jovem que apresentou a Ele cinco pães e dois peixes. (MT 14,13-21)


É preciso que os indivíduos, as famílias, as escolas, as empresas, os governantes e a sociedade civil se comportem fundamentados na lógica biocêntrica, ou melhor, colocando a vida no centro. Desta forma, a economia da partilha não será uma mera utopia.


A sociedade brasileira necessita estar sempre alerta com a economia, que é de todos, perpassando os Municípios, os Estados e a Federação, garantindo, assim, políticas públicas eficazes, voltadas para os menos favorecidos.


Como tudo é visto na perspectiva de lucro, também as escolas confessionais de antiga tradição em nossa cidade se fragilizam e aos poucos algumas começam a fechar suas portas. Dentro de um país que queremos ter a liberdade de escolha e temos que pagar duas vezes por isso, não podemos nos conformar com a diminuição dessa liberdade de escolha devido a uma política educacional que, além de ir aos poucos ceifando a cultura cristã de nossos jovens, vão também tornando impossível a sobrevivência de escolas com ideais nobres de partilha e solidariedade.


A Campanha da Fraternidade 2010 nos leva a refletir profundamente sobre a questão da sobrevivência humana. É preciso que a criatividade nos leve a buscar novas formas sustentáveis de unir homem, economia e natureza. O Texto-Base da Campanha insiste que a economia existe para a pessoa e para o bem comum da sociedade, não a pessoa para a economia. O lema da Campanha, a afirmação de Jesus registrada no Evangelho de Mateus: “Vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro” (Mt 6,24) nos propõe uma escolha entre os valores do plano de Deus e a rendição diante do dinheiro, visto como valor absoluto dirigindo a vida (Texto-base, p.47). O dinheiro, embora necessário, não pode ser o supremo valor dos nossos atos nem o critério absoluto das decisões dos indivíduos e dos governos. O dinheiro “deve ser usado para servir ao bem comum das pessoas, na partilha e na solidariedade”. Toda a vida econômica deveria ser orientada por princípios éticos. A medida fundamental para qualquer economia é um sistema que deveria criar reais condições de segurança e oportunidades de desenvolvimento da vida de todas as pessoas, desde os mais pobres e vulneráveis.


A escola pode muito bem valorizar a vida em todas as suas etapas trabalhando com as crianças, jovens, adultos, idosos, doentes, excluídos, através de trabalhos, visitas, tomadas de consciência da situação. Podemos também trabalhar em todas as escolas com a coleta seletiva de lixo, proporcionando respeito à natureza e reaproveitamento da matéria prima e ainda ajudando as pessoas que vivem desse trabalho. Até mesmo cuidando de uma horta ou de um jardim ou das árvores na escola ou na vizinhança são ótimas oportunidades para cuidar da criação.



Valorizar a vida como o bem mais precioso é descobrir, a cada dia, os valores do outro, da situação da escola, do mundo em que estamos – é olhar com esperança o amanhã e poder ter esperança na fraternidade e no amor uns pelos outros.


No âmbito social, a Bíblia nos mostra profetas acusando reis e gente poderosa que enriquece a custa do povo e não cuida bem daqueles a quem deveriam servir (Is. 3,13-15; Jr 5, 27-29: Ez 34, 2-4 etc.). No âmbito comunitário, a Bíblia fala sobre a diária do trabalhador, que deve ser paga no mesmo dia, pois ele precisa disso para viver (Ex 19, 13), e ao socorro que devemos prestar aos pobres (Dt 15, 7-11). No âmbito pessoal somos chamados a evitar corrupção e desonestidade e viver a partilha no amor fraterno. As palavras de João no Evangelho de Lucas (Lc 3, 10-14) nos oferecem uma orientação clara nesta área.


O pequeno Francisco de Assis em sua virtuosa oração nos sinaliza que “onde houver desespero que se leve a esperança”. Muitas famílias do nosso Estado, do Brasil, do Haiti, do Chile, da Ilha da Madeira, do Oriente, da África experimentaram recentemente o alento após as tragédias, por parte daqueles que aprenderam a lição da partilha e da solidariedade. “Pois é dando que se recebe”. A doação, no aspecto material, é sempre acompanhada de uma paz interior que só pode vir do Transcendente. Seria muito bom que essas partilhas acontecessem sempre e não apenas em momentos de catástrofes.
 
O nosso Santo Padre Bento XVI, em sua mensagem enviada à CNBB, salientou, “que os nossos esforços sejam unidos para reconciliação das pessoas com Deus e para a libertação da escravidão do dinheiro, que tem origem no coração do homem”.



O Conselho Mundial das Igrejas, que congrega aproximadamente 349 igrejas em todo mundo, enviou-nos sua mensagem de motivação afirmando: “Estamos também engajados nesta reflexão, questionando as inter-relações entre riqueza e poder que geram injustiça e pobreza.


Na terceira encíclica de seu papado, Bento XVI defendeu uma nova ordem financeira internacional pautada pela ética e pela dignidade e guiada pela busca do bem comum.


Na encíclica intitulada "Caridade na Verdade", o pontífice denunciou a mentalidade de lucro a qualquer custo da economia globalizada e lamentou que a ganância tenha provocado a pior crise econômica internacional desde a Grande Depressão. "O lucro é útil quando serve de meio para um fim", escreveu ele. "Quando o lucro se torna o único objetivo, quando é gerado por meios impróprios, sem ter o bem comum como principal fim, corre-se o risco de destruir a riqueza e criar a pobreza." A encíclica tem o claro objetivo de apontar para os líderes mundiais uma forte obrigação moral de corrigir erros do passado, "que produziram tal destruição na economia real", e criar uma ordem financeira mundial mais socialmente justa e responsável. "A economia precisa de ética para que funcione corretamente, não qualquer ética, mas a ética na qual as pessoas sejam o centro".


Amados e amadas de Deus, neste momento em que assistimos ao fechamento de duas obras educacionais católicas no Rio de Janeiro, insisto e repito que é urgente o fortalecimento de uma educação que coloque no centro a solidariedade, a paz, a sustentabilidade e a vida.


A sugestão da unidade entre nós, criando a Associação de Professores de Ensino Religioso, unindo todos os credos em uma Assembléia Geral Ordinária, é realmente um “Agir concreto” para esta Campanha da Fraternidade. Temos certeza de que juntos poderemos trabalhar ainda mais pelo bem de nosso país e dos valores que realmente constroem a pessoa humana.


O maior acontecimento é a ressurreição de Cristo, a vitória da vida sobre a morte. A Quaresma é um tempo de preparação para este evento. A economia tem que ser voltada para a vida, para o bem comum e não enriquecer a poucos, à custa da miséria de tantos. A economia tem de passar da sexta-feira da Paixão para o Domingo de Páscoa.
 
Nessa equação, a Vida vale mais!



+ Orani João Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ